Por meio de imagens, Khalil conta a história de iranianos que lutam contra o regime e, dessa maneira, transmite ao mundo o que acontece no Irã. Em entrevista à DW, o desenhista fala sobre sua motivação e seu trabalho.

A imagem para este especial da DW foi desenhada pelo artista árabe Khalil. Não é a primeira vez que ele usa a sua arte para retratar a situação política no Irã. Em 2011, ele publicou com o autor iraniano-norte-americano Amir a graphic novel Zahra’s Paradise – uma história que se passa durante a eleição presidencial de 2009 e conta o destino do jovem Mehdi, que participou dos protestos na capital, Teerã, contra a vitória fraudulenta de Mahmoud Ahmadinejad. Mehdi desaparece repentinamente, sem deixar vestígios. Sua mãe e seu irmão – um blogueiro – o procuram desesperadamente e iniciam uma luta desigual contra as instituições da república islâmica. Assim, são apresentadas imagens implacáveis e assustadoras dos aspectos políticos do Irã. Embora a história de Mehdi e sua família seja fictícia, ela é um exemplo do que acontece com muitas pessoas. O romance gráficoZahra’s Paradise foi publicado em livro e também em capítulos na internet. A história já foi traduzida em 16 idiomas. Por questões de segurança, o autor, Amir, e o ilustrador, Khalil, decidiram não revelar a sua identidade e assinam somente com os seus primeiros nomes. Deutsche Welle: Khalil, você ilustra romances gráficos, um gênero com conteúdo e aspecto gráfico bem diferentes das histórias em quadrinhos. Como funcionam as graphics novels, de que maneira elas transmitem sua mensagem? Khalil: Não há um modelo, existem diversas possibilidades. Na minha juventude, eu lia histórias em quadrinhos. Em algum momento da década de 1980, ouvi pela primeira vez o conceito graphic novel. Nesse estilo, os temas são tratados de forma mais literária e intelectual do que nas clássicas histórias em quadrinhos. Geralmente, as histórias em quadrinhos são consideradas uma arte mais simples – mesmo que não sejam as clássicas histórias para crianças. Eu mesmo sempre fui contra esse conceito, pois acredito que uma história em quadrinhos possa também tratar de temas sérios. Com a publicação de Persepolis, os meios de comunicação passaram a perceber a graphic novel como um gênero sério. Esse gênero possibilita a muitas pessoas, como eu e Amir, trabalhar com profundidade temas muito complexos, temas que não podem ser facilmente articulados em matérias curtas ou reportagens para a televisão. Com o auxílio da graphic novel, esses temas ganham vida e se aproximam de pessoas que normalmente não lêem livros. Dessa maneira, ela é uma forma de arte mista muito interessante que agrada jovens do mundo inteiro. O meu livro e do Amir, Zahra’s Paradise já foi traduzido em 16 línguas. Pessoas de todos os lugares onde ele foi publicado vêm nos agradecer, pois através do nosso livro elas entenderam o que acontece no Irã. Acho que a graphic novel permite ao leitor absorver e entender fatos complexos de forma descontraída. Nesse contexto, qual é a importância das imagens? As imagens são o convite. Com sua força, elas devem conquistar o leitor. Aqui vale um clichê famoso: uma imagem diz mais do que mil palavras. Com uma única imagem, é possível alcançar muito, uma imagem forte pode falar muitas coisas. Há uma série de graphic novels ou filmes em estilo de graphic novels que abordam o Oriente Médio, como o seu livro, ou a já citada Persepolis, ou A Onda Verde e, ainda, Valsa com Bashir. Como se explica essa tendência? Há uma ligação entre elas?

Zahra’s Paradise foi publicado em 2011

Eu acho que tem a ver com o fato de nessa área, tanto no presente, quanto nos últimos anos e décadas, terem acontecido transformações de importância internacional. Por um lado, o colonialismo ainda está presente nessa região – por exemplo, Israel e Palestina. Além disso, as reservas de petróleo fazem com que o local tenha grande importância geopolítica e geoestratégica. Há dois anos, a região vive revoluções como eu nunca tinha visto antes. O movimento iniciado na Tunísia se espalhou não só pelos países vizinhos. No mundo inteiro, pessoas acompanham os fatos. Está acontecendo muita coisa na região, por isso acho que os autores das graphic novels trabalham tanto com o tema. Para o projeto da DW, você está assinando somente com seu nome, Khalil, por questões de segurança, como você e Amir já haviam feito há dois anos ao publicar Zahra’s Paradise. Por que o anonimato? O que você teme? Eu não sou iraniano, embora eu me sinta muito próximo ao país e à sua população e aqui – onde eu vivo – sou de certo modo um integrante de honra na comunidade iraniana. Porém, o Amir é do Irã e ele foi ameaçado diretamente. Ele tem família no Irã e temia que nosso projeto tivesse consequências para seus familiares. E também para ele, quando ele voltasse para o país. Por isso, decidimos permanecer no anonimato. Assim podemos nos expressar livremente, sem ter medo de ataques físicos ou de outras consequências contra nossas famílias. Foi uma decisão fundamental que do nosso ponto de vista fez sentido. Nossos leitores respeitam a decisão de não publicarmos com nossos nomes completos. O que aconteceu depois da publicação de Zahra’s Paradise? Houve tentativas do governo iraniano para descobrir a identidade dos autores? Vocês foram ameaçados? Zahra’s Paradise foi publicado inicialmente na internet. Nós não fomos ameaçados, mas recebemos mensagens ofensivas que, acreditamos, tenham partido do governo. Nosso trabalho foi desacreditado como antimuçulmano, anti-iraniano e antixiita. Muitas pessoas no Irã estavam lendo o livro, então houve tentativas de desacreditá-lo. Há alguns meses, lemos no New York Times que nosso livro é vendido quase que somente no mercado negro, como acontece com muitas publicações proibidas. Nós ficamos bem felizes, pois uma parte da motivação para escrever o livro era não somente acordar o mundo para a situação no Irã, mas também mostrar ao povo iraniano que existem pessoas no mundo inteiro que se solidarizam com ele, que participam do seu destino e os iranianos não estão sozinhos. Como o Zahra’s Paradise foi recebido pelo público? Qual reação você guarda de lembrança? Nós recebemos muitos feedbacks positivos e instigantes, vindos de 151 países. Isso nos motivou muito. O que me impressionou bastante foi que em vários países pessoas se ofereceram para traduzir voluntariamente o livro para seus idiomas – por exemplo, na República Tcheca, na Polônia e na Armênia. No mundo inteiro, havia pessoas dispostas a traduzir 172 páginas. Isso é bastante trabalho. O entusiasmo das pessoas tinha um sentido, pois esse era um aspecto do livro. Ele não deveria ser somente uma história do Irã. Era uma história de uma mãe que perdeu o filho. Essa história comove pessoas do mundo todo. Todos podem se identificar com ela. Todas as pessoas compreendem a busca de uma mãe pelo filho. O que mexeu comigo e com o Amir, durante as viagens após a publicação do livro, foi que os leitores entenderam os outros temas do livro – a tortura, a repressão política e o desaparecimento de pessoas. Com o destino de mãe e filho, eles entenderam o aspecto político do livro e assim se identificaram com ele. To read the original article, click here.

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